trust fall
e outros saltos no desconhecido
trust fall é um exercício muito comum na área do teatro. você fica de costas pra alguém e deve se atirar que nem um saco de lixo nos braços daquela pessoa, na esperança de que ela te segure.
como assim simplesmente deixar o corpo tão vulnerável à atenção de outro indivíduo? o exercício existe e, acho, funciona. não se restringe à dinâmica teatral, pelo que pesquisei. você está preparada para segurar quem se joga. quem se joga sabe que o outro está ali para segurar. apesar das risadas do “será que vou te segurar?”, “tá, agora vai. confia”. “se joga”. você vai.
glitter & gold: ice dancing é uma série documental (netflix) em três episódios que acompanha três pares de patinadores: piper gilles e paul poirier, madison chock e evan bates, e laurence beaudry e guillaume cizeron rumo às olimpíadas de inverno de milão (que ocorrem entre 6 e 22 de fevereiro). eu não entendi bem a cronologia da série, eles aparecem em competições que os preparam para esse momento, mas passa por world tours e grand prix. the point is: piper e paul e mad e evan são tipo os favoritos para vencer, os crème de la crème. porém, o campeão olímpico guillaume decide voltar à cena em parceria com a melhor amiga, a laurence. só assistindo esse tipo de esporte você já percebe que não se troca de parceiro como se nada. o nível de treinamento e confiança é absurdo. essa junção inesperada dos dois meio que “chacoalha” o mundo da patinação. enfim, é um fio narrativo que adiciona um pouco de “drama” à série, mas creio que muitos outros pontos ali devem ser levados em consideração. porém, não é uma série sobre rivalidade, shade e (muito) escândalo.
dança no gelo é uma coisa difícil já em sua base, considerando que se equilibrar em lâminas não deve ser algo muito natural para as pessoas que não cresceram patinando na neve (e nem pra quem nasceu, quem teve a brilhante ideia?). mexer um pouquinho o quadril, nível hard. atirar sua parceira rodopiando acima da sua cabeça e capturá-la no exato minuto e fazer com que ela pouse na pista de forma sublime: celoko, impossível.
mas essas pessoas fazem isso. elas tornam o impossível algo banal. são piruetas, voos, entrelaçamentos e tudo isso enquanto sustenta no rosto uma atuação condizente com o sentimento transmitido pela música escolhida. sorria, sorria muito, tenha leveza nos movimentos. sincronizados, brilhem. e quando estiver no alto, confie que o parceiro estará ali para te segurar.
desde então, estou obcecada por assistir competições de dança no gelo, uma coisa que sempre gostei de acompanhar, mas, por conta desse fenômeno de não ver mais televisão e confiar só no que o youtube me oferece, acabei largando de mão. os jogos olímpicos de inverno são super divertidos e só por conta desse doc da netflix é que retomei esse interesse antigo.
madison e evan ao som de time/breathe/eclipse, do pink floyd. absolute ice dancing!
na academia, a minha personal esses dias colocou um tipo de exercício que eu não vou lembrar o nome, mas eu tenho que flexionar meu corpo pra frente, só apoiando os pés num treco no chão e o quadril num encosto. a primeira vez que fiz esse troço parecia que ia morrer. eu sei, é ridículo, porque, mesmo na hipótese mais besta de que eu caísse (é impossível), eu sairia no máximo com um galo na cabeça.
aquilo me angustiou horrores, no dia seguinte tive dores em lugares que não eram pra doer, de tanto que fazer aquelas flexões me custaram o psicológico. a mulher parada do meu lado dizendo que eu não ia cair e eu ali insistindo que estava com MEDO.
para a minha total infelicidade, o exercício ficou em definitivo no treino novo. mas hoje, a minha atitude diante disso foi diferente. não sei se pelos tantos atos de coragem que tenho tido ultimamente, mas pensei: é, eu não vou cair desse negócio, é só eu confiar NO MEU CORPO, porran!
daí fiquei numa reflexão ferrenha de como hoje eu estava mais confiante no exercício, já não havia medo e que o meu medo de me jogar vale muito para todas as áreas da minha vida.
digamos que eu tenho muito medo do fluxo de certas coisas que acontecem. eu sou jogada pra cima por algum partner e, a todo momento, acho que vou dar de cabeça no chão e ir pro hospital. na maioria das vezes nem chega na fase do salto, eu desisto antes. mas digamos que eu tomei um tombo bonito esses dias. sangrou um pouco a testa, o partner ficou chateado também. mas eu tava pouco me lixando pra isso, minha ideia era curar logo o meu sangramento.
passei um tempo processando isso.
por que eu confiei? por que aceitei ser jogada pro alto? eu nunca mais vou fazer isso de novo.
mas a verdade é que eu vou fazer isso de novo.
sem o salto de confiança, a vida não vale a pena. tudo valeu muito a pena até pouco tempo antes da queda.
eu amo essa música que toca nos créditos finais de frieren, acho que a letra tem um pouco a ver com tudo o que teve nessa carta, até o que ficou subentendido.
até a próxima carta
sue ⚡



A gente não quer workshop, né? Bonito, meu amor. E bonito o teu voo.
Muito boa essa carta, e essas metáforas! A queda pode doer e tal, mas ela meio que não pode invalidar o salto.