uma carta só tripléqui
pensando muitos pensamentos
a mulher fora do tempo
uma professora minha, que por sinal me orientou em mestrado e doutorado, costumava dizer que não existe essa coisa de “fulano está à frente do seu tempo”, pois as pessoas só podem viver e reagir ao momento histórico que lhes é dado (adiciona-se também as camadas de classe e raça). o que pode existir é uma percepção aguçada de coisas já postas no dito “tempo”. isso não torna a pessoinha “fora” do tempo. aceita que dói menos, dizem.
cometi a burrice ou a proeza ou o desespero de ler três livros do byung-chul han na sequência (estavam disponíveis no prime pro kindle e eu não sou boba nem nada). a cada linha, o filósofo tira qualquer possibilidade de solução, esperança, filosofia positiva. até porque a função dele não é confortar ninguém, apenas colocar o problema. gente, o mundo tá assim, assim e assim, tá bem? falou, valeu.
vamos por ordem cronológica (de leitura, não de lançamento).
primeiro, infocracia: digitalização e a crise da democracia (2021).
o entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos e deteriora a racionalidade. em seu texto, divertindo-se até morrer, o teórico das mídias estadunidense neil postman, mostra como o infoentretenimento leva à decadência da faculdade de julgar humana e lança a democracia em uma crise. da democracia faz-se uma telecracia. o entretenimento é o mandamento supremo, ao qual também a política se submete. (…)
a história da dominação pode ser descrita como a história da dominação dos diferentes tipos de tela.
byung-chul han, em infocracia
para ilustrar o nosso estado de constante busca pelo prazer, ele recorre ao clássico admirável mundo novo, de aldous huxley:
admirável mundo novo, de huxley, está em muitos aspectos mais próximo de nosso presente do que o estado de vigilância de orwell. esse mundo é uma sociedade paliativa. a dor é tabu ali. sensações intensas também são reprimidas. cada desejo, cada necessidade, é imediatamente satisfeito. as pessoas ficam tontas pela curtição, consumo e divertimento. a coação à felicidade domina a vida. o estado distribui a droga chamada “soma”, para elevar a sensação de felicidade da população.
(…)
a fórmula da submissão do regime da informação é a seguinte: comunicamo-nos até morrer.
idem, idem
o termo utilizado por han, coação à felicidade, leva meu trem do pensamento diretamente para indústria wellness que fatura bilhões anualmente. se você possui algum problema, precisa saná-lo imediatamente. com meditação, florais, correr 40km, exercício físico além da conta, podcast, journaling. faça alguma coisa até não sentir mais angústia, faça algo até não restar a dor. até a dor não ser perceptível. isso é ser vivo no seu tempo.
o que esse livro sucinto diz, se nada me escapou, é que o regime da disciplina (estudado por teóricos como foucault) foi substutuído pelo regime da informação, o regime dos dados que ultrapassa o problema exclusivo dos algoritimos. não é mais necessário vigiar os seres sociais, nós mesmos nos colocamos à vigilância. esse é meu hábito de consumo, essa é minha casa (decida qual cor devo pintar minha parede), esse é o meu perfume preferido (siga-me para mais dicas), esse é meu café da manhã (veja como se parece o post do pinterest). os exemplos são múltiplos.
muita coisa pra pensar.
depois, veio o desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente (2019). o enfoque recai sobre rituais festivos ligados à religião, mas byung não olha para isso de maneira a desejar um retorno ao passado. apenas mostra como o pano de fundo que regia o tempo das religiões, o tempo sagrado, agora está modificado e isso pode ser a razão de nosso desamparo. nesse livro, o desaparecimento (ou empobrecimento) de uma ação simbólica entra em evidência.
o capítulo coação de produção ilustra o tema:
rituais são ações simbólicas. transmitem e representam todos os valores e ordenamentos que portam uma comunidade. geram uma comunidade sem comunicação, enquanto hoje predomina uma comunicação sem comunidade. a percepção simbólica é constitutiva dos rituais. o símbolo (em grego, symbolon) significa originalmente o sinal de reconhecimento entre amizades hóspedes (tessera hospitalis).
(…)
o mundo hoje está muito desprovido de simbólico. dados e informações não possuem força simbólica. assim, não admite reconhecimento. no vazio simbólico, todas as imagens e metáforas que provocam sentido e comunidade e que estabilizam a vida têm se perdido. a experiência da duração tem diminuído. e a contingência aumenta radicalmente. (…)
pois é bom quando o tempo que passa não nos pareça algo que nos gasta e destrói, como a um punhado de areia, mas como algo que nos realiza.
byung-chul han, o desaparecimento dos rituais
pra jogar a última pá de cal, vita contemplativa ou sobre a inatividade (2023)
esse aqui achei mais “teórico”, no sentido que han traz mais um diálogo com a tradição grega, bem como pega no pé da hannah arendt sobre a vida contemplativa. como ele aponta algumas coisas já abordadas nos dois anteriores, senti aqui uma coisa mais de acadêmico. as reflexões anteriores, por serem sucintas (o jeito moderno que somos capazes de suportar o pensamento) possuem esse impacto de “existe um problema, pense sobre isso”. alguns excertos de vita contemplativa valem o esforço.
nas relações de produção capitalistas, a inatividade retorna como o de fora que é incluído. nós a chamamos de “tempo livre”. uma vez que o tempo livre serve para se recuperar do trabalho, permanece preso à sua lógica. como um derivado do trabalho, ele é um elemento funcional no interior da produção. (…) não conhecemos mais aquele repouso sagrado, festivo. (…) falta ao “tempo livre”, tanto a intensidade da vida quanto a contemplação. ele é um tempo que matamos a fim de não deixar nenhum tédio surgir. não é um tempo livre, vivo, mas um tempo morto.
byung-chul han, vita conteplativa
o tempo livre surge no meu âmago como uma urgência de colocar nos minutos tudo aquilo que me faz ser eu mesma para além do que sou profissionalmente. a partir dessas leituras difíceis, mas inevitáveis, cheguei ao núcleo da minha angústia, irreparável:
nunca vou ter a tranquilidade que almejo, pois ela está na infância. a tranquilidade da qual sinto falta é a de mergulhar tanto numa atividade a ponto de não precisar olhar as horas. nada ocupava minha cabeça além da brincadeira, da leitura, da escrita sem nenhum direcionamento.
quem me tirava do tempo era minha mãe ou meu pai, sinalizando alguma obrigação que eu tinha de cumprir (tomar banho, almoçar, ir em algum lugar com eles). hoje não me é permitido ficar tão íntima das atividades, pois o relógio não pode ser esquecido. muitas das coisas que preciso fazer no tempo livre dependem de horário.
compreender isso me libertou de algumas coisas, ainda que a angústia persista.
comecei a expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação hoje, pois agora que já tamo aqui né, why not? não sei se deveríamos nos voltar tanto para análises tão ocidentalizadas, mas a verdade é que o paradigma neoliberal ocidental permeia quase — quiçá todas — as esferas da nossa vida (de país ocidental).

durante o feriado estendido em berço esplêndido e abençoado do dia do trabalhador, passei a tesoura em alguns jornais (saudosos suplemento pernambuco) e revistas para compor colagens e colocar mais da minha zine em papel na rua. até o momento, acho que só umas quatro pessoas as têm e quero expandir a produção (mas não em larga escala, pois sou só uma). o problema é que colar as coisas pareceu definitivo demais. irreversível demais. por ora, recortei e fiz essas montagens que vão ajudar bastante na composição da newsletter formato digital, poupando a minha humilhação de ficar atrás de imagens interessantes no pinterest e ter aquela sensação de estar cometendo um crime, ainda que sempre coloque o link e dê créditos à pessoa artista sempre quando explicitado.
a partir das leituras do han, pergunto: é possível vivermos fora do nosso tempo? porque, ao que parece, socialmente há um desespero para fugir desse tempo, de não se conectar, não compartilhar, não fornecer dados. é possível? não me refiro a largar redes sociais e morar no mato. me refiro a viver num mundo que não obedece as regras do signo de big techs e outros pesadelos. habitamos o mundo das fake news, da open AI, da novela de fruta no tiktok, no mundo do tinder, bumble, happn, no mundo do linkedin, da creatina, da indústria do wellness, da depressão, da escala 6x1, do aumento da produtividade de maneira inquestionável. ainda é o mundo-tempo do ad da principia no youtube (ódio dessa mulher!), de ad nos streamings que já são pagos, mas pra sumir tem que pagar mais. pode ir pro mato, o mundo continuará sendo esse.
a cada frase do byung (meu brother), as vozes diziam: “tá, então sai desse celular”. “tá, de repente não escreve mais tanto na news”. “tá, de repente não compra mais nada pela internet”. até me dar conta de que não adianta muita coisa. o que pode surtir efeito é entender como atravessar esse tempo. a única certeza é a frustração de se sentir sempre em dívida com algo ainda não identificado.
um pouquinho do que rolou para além das deprê proporcionadas por byung.
certa feita, assisti um filme muito muito lindo e interessante chamado mishima: uma vida em quatro tempos. o escritor (e capricorniano!) japonês yukio mishima teve uma carreira muito diversa no quesito literário: teatro, romance e poesia, you name it, além de fundar uma milícia privada (tatenokai) cujo propósito era defender os valores japoneses. o filme é sobre o último dia do escritor, que acabou cometendo o ritual suicida conhecido como seppuku e os flashbacks que ele tem ao longo da história misturam vida e arte, ressaltando o conflito que pulsava dentro dele.
achei o filme belíssimo, mas nunca busquei nada do mishima para ler. até que um dia, estava eu na casa do meu amigo giliard e — ele tem muitos, MUITOS, livros! — encontrei o pavilhão dourado. como é bem costumeiro, peguei emprestado. e que coisa mais interessante foi essa leitura.
algumas histórias nos deixam ansiosos por terminar. o pavilhão dourado, por seu turno, não demandou nenhuma pressa, não possui nenhum mote revolucionário. é uma história comum sobre um adolescente que vai passar um período no pavilhão dourado e ali enfrenta seus próprios demônios. básico. quem nunca?
o protagonista, mizoguchi, não é das pessoas mais legais do universo. mas isso acaba não fazendo diferença no final. por alguma razão, é agradável acompanhá-lo pelo seu processo de crescimento no famoso monumento japonês.
as imagens que mishima cria nesse livro são fenomenais. não vou esquecer jamais a descrição do trem produzindo nos trilhos um som estridente e refrescante. refrescante!!!! isso é literatura.
a relação de mizoguchi com o pavilhão dourado era muito influenciada pelo grande apreço que seu pai, já falecido, tinha pelo local, colocando-o com o ápice da beleza no mundo. isso atordoava um pouco nosso pequeno menino aprendiz.
a Beleza, essa Beleza que você tanto adora, nada mais é do que uma ilusão daquilo que restou, que sobrou no espírito humano do conhecimento e foi consignada ao próprio conhecimento. é uma ilusão daquilo que você chama de “outros meios para tornar a vida mais suportável”. digamos que esses meios na realidade não existem. no entanto, o que dá força a essa ilusão e lhe atribui todo o realismo possível é outra vez o conhecimento. para o conhecimento, a Beleza não é em absoluto um simples consolo. é mulher, é esposa, mas não é consolo. e do casamento da Beleza com o conhecimento nasce algo — evanescente, como espuma, perfeitamente inútil, mas nasce. é o que costuma se chamar de Arte.
yukio mishima, em o pavilhão dourado, 2010, página 231-232
impossível não se apaixonar e se comover com esse tipo de prosa. uma construção calma e densa, encontrada apenas em grandes narradoras e narradores.
ainda nos japoneses, estou nas últimas páginas de imagens estranhas, de uketsu. se você pesquisar quem é uketsu, vai se deparar com uma pessoa que usa uma máscara ridícula e se veste todo de preto. ainda não saquei se ele é tiktoker, youtuber, ou os dois, mas a real é que o livro possui uma história envolvente a partir de desenhos que fizeram parte da vida das personagens.
com um início chocante, somos capturadas pelo mistério e isso, como é bem característico de livros de mistério, os personagens não ganham profundidade, são apenas os atores que levarão à resolução do mistério.
porém, apesar de explicar tudo tudinho (e talvez até por causa disso), a história não parece forçar a barra, apresentando pelo menos uma linha de raciocínio consistente. eu adoraria ver esse livro adaptado para as telonas, já que os japoneses são ótimos em filmes de horror.
antes de dar tchau
os erros ortográficos são, em sua grande maioria, propositais. as vírgulas, já não garanto. considere apoiar essa newsletter financeiramente direto pelo substack ou então mandando aquele picles lindo para suellen.rubira@gmail.com. isso ajuda com os litros de café utilizados para a produção desse terceiro lugar da internet. ah, e quem é assinante grátis pode dividir essas reflexões com os amigos ou inimigos.
beijocas,
sue ⚡




Excelente nos trazendo elementos e novos conhecimentos transmitidos por pessoas neste universo = pleno de luz- amo e busca de conhecimento e compreensão e partilha.
Abraços e sucesso ... do seu leitor de 89 anos ...
Gostei da teoria da sua professora. Faz total sentido! Outra falácia que me pega é "fulano tem o Q.I altíssimo". Qualquer dia vou pesquisar se isso é algum índice ainda inquestionável, como as pessoas colocam.
Li infocracia para montar minhas aulas e foi um soco. Transferi o soco para os meus alunos, é claro.
Ainda quero ler a crise da narração e um sobre zen que ele escreveu. Gosto dessa crueza do Han. É um se liga mesmo.
Adorei a edição! Robusta de boas referências!